“Arte é garantia de dignidade”
- zinesibita
- 15 de jun. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de jun. de 2022
Edvan Oliveira destaca o trabalho realizado pela Companhia Arte Livre, em Porto Franco
Laurenice Alcantara
Até que ponto a arte é capaz de mudar a vida das pessoas? Para Edvan da Silva Oliveira, 40 anos, fundador da Companhia de Teatro e Dança Arte Livre (Ciatdal), as atividades artísticas possuem o poder transformador de modificar realidades sociais e apresentar novas perspectivas de futuro.
E é com esse intuito de transformar sonhos de jovens e crianças que vivem em situação de marginalidade e risco social em arte que a Ciatdal se mantém há mais de 15 anos em Porto Franco, localizada ao sul do Maranhão, distante 102 quilômetros de Imperatriz.
Com grande destaque e tornando-se referência na região Tocantina, a companhia se consolidou em 2006, tendo como prioridade a valorização cultural e artística locais. Além de educar utilizando o teatro e a dança como principais meios facilitadores.
Em entrevista ao Zine Sibita, Edvan Oliveira revelou com entusiasmo o trabalho realizado pela Ciadtal, ressaltando a importância da arte para promover a dignidade social.

Edvan Oliveira na gravação do programa Leia Mais, do canal no YouTube da Ciatdal (foto: Leidiane Silva)
Zine Sibita: O que é a Ciatdal?
Edvan Oliveira: É uma associação que tem como finalidade desenvolver projetos e ações socioculturais, voltadas principalmente para jovens que residem nos bairros periféricos da cidade de Porto Franco. Não que isso exclua os outros jovens que residem mais para o centro da cidade, de maneira alguma. Porém, a pretensão das atividades é atingir justamente jovens que vivem à margem da sociedade, nos bairros periféricos e que tenham um perfil econômico que é normalmente encontrado dentro desses bairros. Então, a Ciatdal é uma associação sociocultural que trabalha com a cultura para desenvolver ações que resultam em bem-estar social, essa é a nossa pretensão.
Z.S: Por que o nome Ciatdal?
E.O: O primeiro nome que tivemos, quando a companhia não passava de um grupo de amigos que estudavam na mesma escola, foi Amor à Arte. Só que com o passar do tempo e até mesmo conhecendo o contexto em que a companhia ressurge, em 2006, a gente sentiu que tínhamos que ter um nome que fosse representativo e que identificasse com clareza o que queríamos repassar. Então, como o projeto da companhia era pautado sobretudo na questão da liberdade artística e de expressão, buscando assim uma arte que respeitasse a pluralidade e fosse provocativa na sociedade, decidimos trocar a questão do amor por “livre”.
Z.S: O slogan da companhia é “Transformando sonhos em arte”. Você acredita que no decorrer desses 15 anos de atuação na cidade, sonhos foram vividos por meio da arte?
E.O: Então, a maioria dos jovens que passaram pela companhia pertenciam a um contexto social muito complicado, em que eles acreditavam que o limite era a realidade dos familiares. Hoje a gente tem um quadro de membros bastante capacitado, pedagogos, administradores públicos, filósofos e educadores físicos. Temos três pessoas que estão na faculdade de Artes Visuais da UFMA. Então, esse quadro se transformou a partir da arte, criou um contexto e imaginou uma realidade a partir do sonho da arte.
Z.S: Qual a importância da Ciatdal para o desenvolvimento e garantia da cultura na cidade?
E.O: As evidências são mais do que a prova viva da relevância do projeto. Primeiro no contexto social, como eu acabei de mencionar, os jovens que poderiam estar em um contexto de criminalidade, hoje são pais e mães de famílias que contribuem com o município através da sua arte e da sua profissão. Outro ponto é que, não só em Porto Franco, mas em nossa região, não há associações e entidades que atuem como o Arte Livre na percepção de disseminar o máximo possível de pluralidade artística e de fomentar outros grupos. Tanto é que, em Porto Franco, a única livraria que temos é a nossa. Então, esses fatores principais nos levam a acreditar que, sim, a companhia tem uma relevância muito grande para a manutenção da cultura do município de Porto Franco e na região.
Z.S: É notório que a Ciatdal conquistou seu espaço no cenário cultural não só de Porto Franco, mas também na região Tocantina. Quais foram os maiores desafios vivenciados nesse processo de consolidação?
E.O: O primeiro deles é ainda presente, que é o fato de vivermos em uma região extremamente conservadora. Por exemplo, nós temos um espetáculo chamado Avesso, que é uma mesclagem de teatro e dança focado em vivências de pessoas LGBTQIA+. Na época em que ele foi lançado, foi muito difícil de conduzir e fazer com que a sociedade aceitasse, por que a gente estava trazendo pautas delicadas e provocativas. Outro fator que ainda implica bastante é o fato de sermos uma associação que trabalha totalmente de forma voluntária. As pessoas que são colaboradoras não recebem nada, muito pelo contrário, pagam pra fazer sua arte.

Apresentação do espetáculo” Avesso”, baseado em vivências de pessoas LGBTQIA+. (foto: Edvan Oliveira)
Z.S: A Ciatdal completou 15 anos de atuação em 2021. Se você pudesse escolher um ou dois momentos que foram significativos na história da Companhia, qual você escolheria?
E.O: Tá aí uma pergunta que eu nunca parei pensar, ela é muito complexa e dramática, né? Mas assim, sem dúvida acredito que o projeto Leia mais foi a principal transformação que aconteceu na companhia nos últimos anos. Porque, a partir dele, nós começamos a ver a arte como um processo capaz de criar essa dignidade de provocar o destino.
Z.S: Com esse cenário pandêmico, como as atividades aconteceram?
E.O: A companhia tentou de todas as formas se reinventar para mantermos as nossas atividades. E como fizemos isso? A partir das plataformas virtuais. Fazíamos às reuniões da diretoria e aproveitamos para começar a desenvolver o nosso projeto de leitura, de maneira que fosse transmitido ao vivo pelo YouTube, com participações. Isso foi muito bom, porque há muitas pessoas que saíram do Arte Livre e que hoje estão morando em outros estados, e de lá eles puderam participar. Então, foi uma experiência que nos permitiu viver algo que parecia até um pouco distante.

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