Uma família unida para transformar
- LAIZA CRISTINA DE SOUSA REGO
- 18 de set. de 2024
- 7 min de leitura
Atualizado: 20 de set. de 2024
Solanda Steckelberg conta a trajetória do Centro Cultural Tatajuba
por Laiza Cristina Rego
Com uma bagagem profissional de 30 anos de atuação na área da cultura, a empreendedora Solanda Steckelberg, 53 anos, nascida em Anápolis-GO, propôs uma nova visão para a pousada Ponta do Sol após a sua falência em decorrência da pandemia da Covid-19, transformando o espaço em um centro cultural. Sua ideia era revitalizar e oferecer à comunidade um lugar dedicado à arte, educação, empreendedorismo e sustentabilidade. O projeto foi aceito pela família, que passou a trabalhar em conjunto na adaptação do espaço.

Solanda em fala durante evento do Tatajuba (foto: Ana Clara Andrade)
Fundado em 2020, o Instituto Tatajuba se tornou, em pouco tempo, uma referência na região, com o alcance de cerca de 35 mil pessoas. Atua em cinco estados (MA, PA, AM, MG e ES) e tem como objetivo auxiliar na melhoria da vida. O Centro Cultural já ofereceu 221 oficinas como as de culinária regional, apresentações de danças locais, exposições de artes visuais ministradas pelo artista plástico local Tonneves e mostras de cinema. O local recebeu, também, oito exposições de artes plásticas, dentre elas “Portinarião: uma exposição de Candido Portinari no Maranhão”, ainda em cartaz. Em entrevista exclusiva ao Zine Sibita, Solanda fala sobre os bastidores, o propósito e os impactos da criação do Tatajuba.
Zine Sibita - Quais foram os bastidores para a criação do Tatajuba?
Solanda Steckelberg - Nossa, bastidores de muito esforço da família. O Tatajuba está numa ex-pousada da minha mãe. Era a pousada Ponta do Sol e aí faliu na pandemia. Os bastidores foram de uma família unida, eu e meus irmãos, para poder transformar aquele espaço em alguma coisa que a gente acreditasse. Como eu trabalho com cultura há mais de 30 anos, trouxe a ideia de ser um centro cultural e meus irmãos [Renato, o Tata e Juliano, o Juba] abraçaram. A gente, com as mãos à obra, literalmente, na construção do que está ali hoje. Meus irmãos mais ligados à obra em si, adaptação do prédio, e eu na elaboração dos projetos e na captação de recursos.

Solanda e família: os irmãos e diretores do Tatajuba, Renato e Juliano Steckelberg, e a cunhada e presidente do Centro Cultural, Iasmin Silva. (foto: arquivo pessoal)
Z.S. - Explique a justificativa e o propósito específico das atividades oferecidas pelo Tatajuba.
S.S. - A nossa missão é sempre trabalhar para a melhoria da vida das pessoas. Nossos projetos são sempre gratuitos e baseados na arte e na cultura. Estão em Imperatriz, mas também circulam pelo interior do Pará e do Maranhão, principalmente na área de formação e capacitação. A sede física na qual a gente oferece essa programação de artes plásticas, de dança, de artes cênicas, de culinária, de artesanato, fica em Imperatriz. E a gente tem outros projetos itinerantes, por exemplo, de audiovisual, de grafite, de formação e gestão cultural, que circulam em outras cidades. Um dos escritórios que atendem o planejamento do Tatajuba fica em Belo Horizonte, que é onde eu fico.

Alunas se preparando para aula de dança no Centro Cultural Tatajuba. (foto: Laiza Cristina Rego)
Z.S. - Como você percebe as repercussões e impactos dos projetos do Tatajuba junto à comunidade de Imperatriz e região?
S.S - Talvez, voltando um pouquinho na outra resposta, esse modelo de trabalho híbrido só seja possível porque a gente consegue hoje ter as tecnologias como essa aqui, de reunião on-line. E as tecnologias cada vez mais avançadas de gestão para que aconteça essa existência do Tatajuba em várias cidades, em vários projetos, mas também com vários parceiros. A gente precisa de um trabalho multidisciplinar no qual muitas vezes os profissionais não estão em Imperatriz, mas conseguem trabalhar a distância por causa do uso das tecnologias. Sobre o impacto da comunidade, eu o considero muito positivo. Acho que o Tatajuba já chegou no atendimento de 35 mil pessoas, várias oficinas e projetos. Considero que a gente tem feito um trabalho acolhido pela comunidade, abraçado por Imperatriz, por todas as instituições parceiras que a gente tem, às quais sou muito grata. E fazendo, de fato, uma entrega de arte e cultura de qualidade.
Z.S. - Quais são as estratégias para garantir que os projetos desenvolvidos pelo Tatajuba alcancem o público-alvo?
S.S. - A gente tem várias equipes de produção, de comunicação, de gestão, e essas equipes têm funções e atribuições para, desde fazer o projeto, estar sendo realizado, produzido, nos espaços que a gente oferece, até serem divulgados da melhor forma possível. Então, a nossa equipe de comunicação, por exemplo, faz assessoria de imprensa, mobilização, divulgação nas redes sociais. A gente tem uma secretaria para fazer inscrição, ou seja, tem todo um fluxo e um sistema articulado para que um aluno possa chegar na sala de aula ou no curso que ele escolheu fazer.
Z.S. - Como se dá a escolha dos (as) professores (as) e qual o perfil desses (as) profissionais?
S.S - Geralmente pessoas ligadas ao mercado de trabalho da arte e da cultura de Imperatriz. São pessoas que a gente convida para trabalhar nos nossos projetos a partir dos currículos deles.

Sala de aula do artista Tonneves. (foto: Laiza Cristina Rego)
Z.S. - E como vocês convocam o público para as ações do Tatajuba?
S.S. - São várias pessoas, empresas, prestadores de serviços e funcionários para fazer o Tatajuba acontecer, fazer a nossa programação chegar ao nosso público. E aí a gente tem várias metodologias de trabalho, reuniões, feedbacks, divisão de tarefas e de contratos. Então, funciona como uma empresa.
Z.S. - Como você disse, antes era uma pousada que faliu. E aí vocês resolveram transformar em um centro cultural. Nesse meio tempo, quais foram os maiores desafios que vocês enfrentaram para chegar até aqui?
S.S. - Olha, trabalhar com cultura não é fácil. Cultura não é uma prioridade no nosso país. Então, é o desafio, acho, de todo mundo que está nesta área, de todos, de fazer a cultura ser percebida como importante, como uma mola propulsora da economia criativa, da gestão de renda e do desenvolvimento humano.
Z.S. - Quando você está ali, no meio das pessoas, qual é a emoção que você percebe que elas mais manifestam?
S.S. - Olha, a arte e a cultura mudam a perspectiva de vida das pessoas. A arte aciona a criatividade, desenvolve o gosto por meio do olhar, do tato, do olfato, de todos os sentidos, o seu estilo de vida. Então, a arte contribui muito para que as pessoas se conheçam melhor. É um processo de autoconhecimento.
A cultura nos molda no que a gente percebe, na clareza do nosso pertencimento no mundo.
Z.S. - Se você pudesse descrever o projeto Tatajuba como uma jornada, quais seriam os ponto inicial e o final?
S.S.- O ponto inicial, acho que vem da infância de três irmãos unidos que conseguem trabalhar um projeto conjunto. A nossa família sempre foi muito musical, sempre gostou muito de festejar, da cultura popular. E acho que o destino vai ser feito com as pessoas que estão com a gente, que frequentam o Tatajuba. E eu vejo um destino muito iluminado, porque estamos na região Tocantina, que é de muita potência artística e cultural. O destino é a gente cada vez valorizar mais a nossa arte, a nossa cultura regional.
Z.S. - A existência de centros culturais como o Tatajuba, de certa forma, compensa a falta de incentivo do poder público no campo da cultura?
S.S. - Acredito que a sociedade é formada de várias forças e todo mundo tem de desempenhar o seu papel nessa busca por um mundo melhor. Acho que a gente se completa, entendeu? Nem sempre, nem um lado nem o outro fazendo o que poderia estar fazendo de melhor, mas acho que deveria ser complementar: não substitui, complementa. O Tatajuba, por exemplo, acessa, e se parceriza com o poder público nas políticas públicas viáveis e possíveis. Então, por exemplo, tem as leis de incentivo à cultura que a gente acessa. Também cabe à sociedade procurar saber melhor sobre esses assuntos, ao invés de já partir para uma crítica, tanto às empresas quanto ao poder público, e tentar fazer a sua parte da melhor forma possível. Agora, evidentemente, temos que fiscalizar, cobrar, para que a gente tenha o melhor desempenho possível. Mas, em si, acho que são forças complementares.

Produtos da agricultura familiar para a comercialização na loja "As Silvas". (foto: Laiza Cristina Rego)
Z.S. - O Tatajuba recebe apoio de empresas que costumam ser questionadas. Vocês são criticados por conta desse apoio? Se sim, como lidam com essas críticas?
S.S. - Olha, acho que a gente está ligado a uma missão que, além de ser muito bonita, é muito importante, que é o de transformar a vida das pessoas, de ter um impacto social positivo. Então, acho que essas coisas são separadas. Aliás, sem o apoio dessas empresas, o Tatajuba não existiria, certo? A nós não chega, não tem esse tipo de problema. A gente está no desafio de tornar cada vez o mundo melhor. E é nesse desafio que a gente se pactua com elas.
Z.S. - Atualmente o Tatajuba tem muitas parcerias. Quais são elas? Há perspectivas de ampliação?
S.S. - Sim, nossa, são muitas instituições parceiras. E a perspectiva é, sim, sempre ampliar o máximo possível. A gente é um espaço democrático, e acolhimento. Então, precisa, sim, ter a perspectiva de ampliação. E aí a gente tem parcerias desde a Casa da Mulher Maranhense, a Casa do Idoso, a Assari, a Associação dos Artesãos de Imperatriz. A cooperativa Pindova [ligado à Associação do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu], a Cooapis [Cooperativa dos Apicultores/Meliponicultores e Agricultores Familiares de Imperatriz e Região]. Se eu for elencar aqui, talvez eu cometa injustiças. Mas o importante é que só se trabalha um centro cultural como o Tatajuba, com parcerias e rede. Essas parcerias são absolutamente importantes. Soma-se a isso os nossos patrocinadores, por meio das leis federais de incentivo à cultura. A estadual também. Escolas públicas municipais e as estaduais, a própria Universidade Federal [UFMA], a Uemasul [Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão]. Uma infinidade de parcerias que fazem a gente trabalhar junto com todos que têm essa missão de promoção e democratização da arte e da cultura.
Z.S. - O Tatajuba tem muitos projetos. Existe algum que vocês pretendem lançar, a longo prazo, em Imperatriz e região?
S.S. - A gente acabou de lançar as Silvas, que é uma rede criativa para artesãos, na qual os nossos alunos de artesanato e culinária podem desenvolver seus produtos e colocar à venda na loja. Assim como outros artesãos e parceiros da loja podem colocar os seus produtos e receber capacitações. A nossa intenção é fortalecer a loja Silvas, a programação do Tatajuba, e manter isso aí que a gente está oferecendo até então.

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