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Corujito: do som do berimbau ao impacto social

Mestre Luciano José e a sua jornada em defesa da capoeira


por Stephany Apolinario


Em 1988, um menino de 12 anos estava passando em frente ao colégio Godofredo Freire, no bairro Viçosa, em Teresina, quando escutou o som de um berimbau. Encantado e curioso para saber do que se tratava, ele foi atrás e encontrou uma roda de capoeira. Observando, ficou fascinado por essa arte. Foi assim que começou a trajetória de Luciano José dos Santos, 48 anos, conhecido popularmente como mestre Corujito na capoeira. Hoje além de dar aulas, constrói instrumentos musicais do universo da prática.


Ainda que Luciano não tenha vivido a época de maior preconceito contra a capoeira, ele passou por alguns momentos difíceis. Por exemplo, sua avó perguntava: “Que diacho você quer com esse negócio? Isso é coisa de quem não tem nada para fazer”. Mesmo assim, ele continuou sua jornada, que começou aos 12 anos, e agora, já tem 36 anos dedicados a essa prática, contrariando todos que diziam que ele passaria fome.

O mestre nasceu em Teresina (PI), mas veio para Imperatriz em 2004. Integra o grupo Raízes do Brasil, mas com passagem por outras escolas de capoeira e projetos sociais, como a Senzala e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). A sua paixão por essa arte foi transmitida aos seus dois filhos, Paulo Vitor, 10 anos, e Luís Antônio, 6 anos, que também se interessaram pela prática. “Tem que haver estímulo, mas tem que deixar gostarem naturalmente, porque se eu disser que só pode fazer isso, eles perdem o interesse”, acredita Corujito.


Corujito conseguiu transmitir a sua paixão pela capoeira aos seus filhos, Paulo e Luís. (fotos: arquivo pessoal)


Evolução


Em 2013, aos 37 anos, Luciano recebeu o título de mestre de capoeira de José Gualberto da Silva Neto, o mestre Tucano, e da Associação Cultural de Capoeira Raízes do Brasil. Para ele, essa arte é uma forma de expressão e inclusão, por isso participa de eventos fora da cidade, contribuindo para o fortalecimento da área. Desde jovem está neste movimento e, após dois anos de prática, descobriu sua vocação para tocar instrumentos, dominando rapidamente o berimbau e o atabaque.


Dos instrumentos de bambu aos feitos sob encomenda, Corujito evoluiu ao longo de sua jornada. O capoeirista começou a fabricá-los devido à dificuldade de encontrar, pois na época apenas os professores de capoeira tinham acesso a esses materiais. “Cansei de fazer berimbau com latas de leite Ninho, só para conseguir um som e começar a aprender”, revela o mestre.

O artesanato surgiu por necessidade, mas o apreço cresceu com cada nova evolução. Inicialmente, os instrumentos eram fabricados para uso próprio. A partir de 2000, Luciano passou a confeccionar berimbaus e uma de suas partes, o caxixi para venda, agora utilizando materiais de qualidade. Sua evolução como artesão é notável, especialmente quando se compara os recursos limitados que usava no começo, quando precisava buscar matéria-prima nos matos, com as opções mais acessíveis que têm à disposição hoje.


Corujito acredita que a capoeira não está vinculada a nenhuma religião específica, mas sim aos capoeiristas que a praticam. Para ele, a capoeira é uma paixão e um estilo de vida, e sua prática é sustentada por aqueles que verdadeiramente se identificam com ela. “Dentro de uma roda de capoeira, você consegue colocar o evangélico, o católico, o protestante, seja o que for, todos juntos”, afirma o mestre, destacando a natureza inclusiva desta arte.


Corujito conseguiu aperfeiçoar, com a prática, o seu artesanato de instrumentos da capoeira. (foto: arquivo pessoal)


Inclusão


Na prática da capoeira inclusiva, Luciano é professor na Apae, onde adapta suas aulas às necessidades e limitações de cada aluno, respeitando seu ritmo e potencial. A repórter, que acompanhou algumas dessas aulas, observou que realmente cada aprendiz praticava de acordo com suas próprias habilidades. Durante uma conversa com o mestre sobre essa metodologia, um dos alunos compartilhou que, no início, não conseguia realizar um determinado movimento. Sua empolgação era evidente ao demonstrar o movimento para a repórter e para Corujito, que o incentivou a continuar se aprimorando.


Um outro aluno mencionou como a capoeira ajudou a melhorar sua saúde. O mestre explicou que a prática não só reduz as crises de epilepsia, mas também diminui a necessidade de medicamentos. "Percebi essas mudanças observando o dia a dia dos alunos. A capoeira não é apenas um exercício físico; ela trabalha a mente, o equilíbrio e a concentração. Quando vi que as crises diminuíram e a medicação era reduzida, soube que estávamos no caminho certo", diz o mestre. Ele acredita que essa arte não é apenas cultural e inclusiva, mas também uma ferramenta poderosa para o bem-estar físico e mental.


Os anos se passaram, e quem poderia imaginar que o som do berimbau e a curiosidade seriam o ponto de partida para a carreira de um mestre de capoeira? Como ele mesmo disse, “a gente vai se aperfeiçoando com o tempo”. Muitos projetos ainda estão por vir, e sua trajetória continua em aberto. Caso seus filhos ou alunos sigam o mesmo caminho, novos capítulos ainda estão por ser escritos.


Preocupação com a inclusão social marca a trajatória de Corujito, como no trabalho desenvolvido na Apae. (foto: divulgação/ Apae)

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