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“Eu rebolo na minha arte”

  • Foto do escritor: Yara Medeiros
    Yara Medeiros
  • 7 de fev. de 2023
  • 3 min de leitura

Atualizado: 8 de fev. de 2023

Kevem encontrou a liberdade como a drag, DJ e performer Akira


Paulo Rayan


“Sempre fui uma criança muito viada. Me interessei pelo lado feminino e isso foi muito forte em mim. Não conseguia entender o que era, e muitos menos saber o que eu poderia fazer com isso. Mas sabia que eu tinha isso, que era meu e para ser eu“, conta Akira, drag queen, DJ e performer de Imperatriz. O hábito de “se montar” era um hobby até que, em 2022, a artista percebeu o potencial profissional de suas apresentações como drag. Antes, não acreditava que conseguiria viver dessa arte.


“Eu parei e falei: ‘Cara, eu sou muito boa, sei que sou boa e posso fazer esse rolê dar certo, sim’”. Akira já se apresentou em cidades da região Tocantina e em São Luís (MA) e Marabá (PA).


Kevem começou a "se montar" e hoje atua profissionalmente como artista do mundo drag. (foto: arquivo pessoal)


Foi aos 16 anos que Paulo Kevem Neto Matos descobriu o mundo drag e se apaixonou. Como sabia que seus pais não aceitariam, passou a “se montar” escondido. Pegava o dinheiro que sobrava e comprava maquiagens, perucas e apliques baratos, pois não tinha condições suficientes para comprar produtos de qualidade.


Ele era seu próprio estilista, criava os looks e se montava em casa mesmo, quando seus pais saíam para trabalhar ou viajar. Era o único método que Kevem usava para escapar dos sentimentos de incompreensão e incompletude.


Liberdade de ser


Como passou a se montar com mais frequência, a mãe percebeu o comportamento do filho e encontrou uma peruca, peças de roupas e uma bota. A artista conta que não aceitou quando ele explicou que era gay e que se montava. Foi um baque para os pais, que jamais aceitariam a decisão. Mesmo com essa situação, Kevem continuou na casa da família, mas tudo que eles viveram juntos mudou a partir daquele momento.


Quando o convívio com os pais foi ficando mais difícil, é que Akira surgiu, há cinco anos. Kevem começou a sair montado. Deixava suas coisas na casa de amigos e seguia com a personagem. Ele conta que essa atitude era mágica e o fazia esquecer de tudo, aos 18 anos.


Akira foi o nome escolhido para a personagem pelo caráter agênero. (foto: arquivo pessoal)


A decisão de sair em público vestido de drag, foi uma experiência única para Akira pela liberdade de viver como sempre quis. Mas os conflitos com a família continuaram. Quando decidiu sair de casa, mesmo sem ter renda, conseguiu a ajuda de um amigo por alguns meses e um emprego em uma loja de departamentos. Logo alugou uma casa e morou por alguns meses só com um colchão e um ventilador.


“Mas pude fazer minha arte. Muitas vezes eu deixava de comprar algo que eu precisava para comprar roupas, perucas e maquiagens e assim me montar, porque isso fazia muito sentido para mim”.


Até perceber que poderia dar certo viver profissionalmente como drag, já tinha trabalhado como operador de caixa, vendedor, arrumador de loja, supervisor, venda interna e externa, cabeleireiro, maquiador e garçom. Mas nem uma dessas ocupações era o que de fato gostava e parou a faculdade que cursava. “Sou a única Akira. E ela se torna única pelo seu jeito, esforço e por toda a minha vivência. Pego essa história e rebolo na minha arte.” Kevem queria um nome não binário, que fosse agênero e se dedicou às pesquisas. A drag então foi batizada como Akira, que significa luz, brilho e talento.


“Akira é o momento em que eu me desligo de tudo. Ela tira tudo de ruim que penso, ela me salva. Eu sou perfeita, eu sou tudo, aquele é meu momento. Eu fico nela e vou vivendo isso”.


Diante do sucesso que Akira fez desde a sua primeira “montagem” e apresentação pública, ela não parou de buscar inovar as performances, maquiagens e o look. A inspiração pode surgir de qualquer coisa, segundo ele. “Se eu ver uma caixa linda no chão, se eu olhar para ela, já vira uma inspiração. Se eu ver um look diferente em alguém na rua, me inspira”. Como referências cita artistas como Glória Groove, Pablo Vittar e Lady Gaga.


Primeira montagem da performer. (foto: arquivo pessoal)


“Não estou no palco fazendo Akira por questões numéricas, e sim por ela ter me tirado de um buraco enorme que tinha dentro de mim. Não quero ser maior e nem melhor que ninguém. Quero ser melhor que a mim mesmo nesses anos todos. E onde eu for, vou levar o nome de Imperatriz comigo e mostrar que aqui tem arte e cultura, sim”.



Akira em ação na arte performática e como DJ. (foto: arquivo pessoal)


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2022 - Zine Sibita. Revista Cultural dos Estudantes de Jornalismo - UFMA - Imperatriz.

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