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Recordações de um cinema contracorrente

Membros do provocador Cinema no Teatro relembram impacto do projeto


por Artur Marques


Por mais de 10 anos, a partir de 2005, uma iniciativa sem fins lucrativos de exibições cinematográficas, o Cinema no Teatro, foi uma via alternativa às salas de cinema comerciais em Imperatriz. Além de assistir produções que fugiam do circuito hollywoodiano, o público das sessões realizadas pelo projeto era convidado a permanecer em suas poltronas e participar de debates conduzidos pelos organizadores.


Criado pelo professor do curso de Letras da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (Uemasul), Gilberto Freire de Santana, o Cinema no Teatro mantinha uma média de público de 20 pessoas por sessão, mas já chegou a preencher todos os assentos do Ferreira Gullar. "Era uma coisa muito bonita ver aquele teatro lotado", recorda ele.


Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), Gilberto conta que seu sonho sempre foi fazer cinema, mas que não teve a oportunidade devido às questões financeiras e pelas intervenções do regime militar brasileiro (1964-1985), que prejudicou as atividades desse curso em todo o país. Porém, a partir do envolvimento em diferentes projetos culturais, dentre eles o Cinema no Teatro, o jornalista realizou seu desejo de vida.


Nos primeiros anos do século XXI, o professor se sentiu instigado a tomar alguma atitude à respeito do seu acervo pessoal de filmes, que contava com mais de duas mil obras em mídia física. "Minhas filhas não queriam nem saber deles. E eram tantas, mas tantas obras... Eu ia deixar elas ali, juntando poeira?", reflete Gilberto.


Foi por isso que o professor decidiu fazer daquela coleção um verdadeiro convite aos moradores de Imperatriz para conhecer o cinema como arte, diferente do que se encontrava nas salas comerciais da cidade. E assim nasceu o Cinema no Teatro.


Vinheta de apresentação do Cineclube Cinema no Teatro



Cinema é coletivo


Apesar de ter sido o idealizador do projeto, a responsabilidade pelo seu funcionamento não se restringiu a Gilberto. Para isso, o professor contou com o apoio de membros que incluíam desde colegas de profissão a alunos voluntários. A partir desta parceria, todos viriam a ser transformados pela iniciativa.


Nice Rejane, professora que também compunha o corpo docente da Uemasul, pelo curso de Licenciatura em História, foi uma das principais parceiras, até se tornar vítima da pandemia de Covid-19, em 2021. "Eu e ela tínhamos uma relação muito estreita. Então, quando precisei deixar a cidade para realizar meu doutorado, ela foi a primeira com quem contei para dar conta de tudo", recorda Gilberto.


A saudosa Nice Rejane e Gilberto foram pioneiros no projeto Cinema no Teatro. (foto: divulgação)


Renan Chaves, indigenista formado em História, também foi um dos ex-coordenadores do Cinema no Teatro. Sua primeira experiência com o projeto foi em uma sessão de Satyricon (1969), de Federico Fellini, quando ainda era um adolescente. Ele lembra de Gilberto e Nice subindo no “palco italiano” do teatro após o encerramento do filme e indagando ao público: “O que acharam?”. Esta era a senha para dar início a um dos tradicionais debates que marcaram a trajetória do projeto.


Apesar desse episódio ter sido marcante, apenas anos depois, ao entrar na faculdade, Renan passou a ser um frequentador assíduo. Ele lembra que seu retorno aconteceu em uma projeção de Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles. “A partir daí eu mergulhei naquela realidade, eu queria ser amigo daquelas pessoas”, afirma o historiador. E não demorou muito para que ele tivesse seu desejo concretizado, criando, ao decorrer de sua participação no projeto, laços que se mantém atados até os dias de hoje.


Chamada para a mostra de cinema latino-americano, que ocorreu em 2017. (foto: divulgação)


Antônio Fabrício Barbosa, cineasta e professor do curso de Cinema do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG), também deu passos consideráveis na sua formação como cinéfilo a partir da iniciativa. Ele, que vivia no município de Balsas (MA), conta que passava suas férias em Imperatriz quando foi em sua primeira sessão no Ferreira Gullar. Na ocasião, o filme exibido era Entre o céu e o Inferno (1963), de Akira Kurosawa.


Fabrício já tinha o costume de frequentar festivais de audiovisual, porém, o contato inicial com o projeto não se assemelhava a nada que já tinha vivido. “Foram meus primeiros contatos com filmes que fugiam da ideia que tinha do que era cinema. Filmes clássicos, de fora do circuito comercial”, ressalta ele, que decidiu fazer de seu ofício a prática cinematográfica.


Outro ex-integrante que também já esteve na coordenação do projeto é o jornalista e documentarista Fernando Ralfer. Formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Ralfer conta que sua “estreia” na plateia do Cinema no Teatro ocorreu a partir do convite de um professor dos tempos da graduação. “Eu ainda lembro o filme, foi Mistérios e paixões (1991), do David Cronenberg. Depois disso, a curiosidade bateu e me tornei um frequentador”, aponta.


Gilberto e seus colegas formaram, então, o Núcleo Imperatrizense de Cinema Experimental, ou Nice. Criado em dezembro de 2007, o objetivo do coletivo era produzir vídeos e organizar oficinas, além de estimular a cultura audiovisual em Imperatriz. Assim, surgiram produções como 3 reais (2009), sobre a rotina de mototaxistas e Camelo (2013), a respeito de pessoas comuns da cidade que usam bicicleta como transporte, ambos dirigidos por Antônio Fabrício.


"Chegamos a integrar vários circuitos de exibição com o Cinema no Teatro", afirma Fabrício. Ele destaca a participação do cineclube no circuito da Programadora Brasil, política do Governo Federal que visava distribuir obras nacionais para que cidades como Imperatriz pudessem exibi-los. "Para levantar verba, a gente fazia muita coisa. Até bloquinho de carnaval organizávamos. E nós ganhamos dinheiro por isso, porque vencemos uma competição de bloquinhos organizada pela prefeitura", recorda.

 

Organizadores do projeto, como Antônio Fabrício (foto 1) e Fernando Ralfer (centro da foto 3) (fotos: acervo pessoal)


Cinema é tese, crítica é antítese


Foi por causa do Cinema no Teatro e de seu "irmão" mais novo, o Cinema nos Bairros, extensão do projeto que visava deslocar essa experiência para áreas periféricas do município, que Gilberto vivenciou algumas de suas experiências cinematográficas mais marcantes. A exibição de Doméstica (2001), de Fernando Meirelles e Nando Olival, no bairro Vila Lobão, é uma das que ficou guardada em sua memória. “Foi a experiência de cinema mais bela que eu já vi”, afirma o professor.


Como o filme é uma comédia, a reação inicial da plateia foi de dar risada de algumas situações. “Quando começou, as pessoas riam da negra que tentava pentear seus cabelos com um deboche doloroso”, conta Gilberto. Porém, enquanto a exibição foi se desenvolvendo, o filme começou a mostrar para aquelas pessoas “que elas riam de suas mães, irmãs, primas e vizinhas”.


A partir dali, apesar de não terem deixado de rir, as gargalhadas não eram mais de deboche, e sim de identificação. “Eles sorriam de forma dolorosa vendo aqueles personagens sobreviverem”, analisa o professor. Naquela ocasião, Gilberto diz ter tido a certeza da capacidade que a arte possui de “atingir e modificar as pessoas”.


Renan Chaves confirma que o Cinema no Teatro foi o responsável por transformá-lo em um cinéfilo e abrir seus os olhos para conhecer diferentes visões de mundo. Essas impressões o impactaram de maneiras também diversas, das mais convencionais às mais provocadoras.


Ele nunca se esqueceu do impacto que teve ao assistir, no Cinema no Teatro, o filme O Sabor da Melancia (2005), de Tsai Ming-liang. “Infelizmente, ali para mim não deu. Violentou a minha mente e eu tive que sair da sessão”, afirma Renan, rindo. Ele reitera que essa reação não é puramente negativa, mas que a dificuldade para digerir o filme exemplifica como o cinema, ao abordar temas sensíveis de forma genuína, pode implicar reações extremas, que marcam fortemente a memória.


E, se em Renan a película chinesa provocou tamanha reação, a experiência de Fabrício durante a mesma sessão foi contrária à do amigo. “Enquanto saía, passei por ele e notei que estava colado na tela”, lembra o indigenista. Fabrício confirma a fala do ex-colega, assegurando que aquela foi uma das suas experiências mais memoráveis no projeto.


Uma particularidade do projeto que Fabrício destaca é a de sessões de obras regionais que o Cinema no Teatro propunha. A iniciativa fortalecia a cena de produções locais do Nice, como Camelo, que atraiu um público capaz de bater a capacidade máxima do local.


“A gente viu acontecer a efervescência do cenário. Era muito bom ver filmes passarem pelo Cinema no Teatro e depois irem para o circuito de festivais”, afirma Fabrício. Ele ainda lembra das ocasiões das exibições de Raul – O início, o fim e o meio (2012), documentário de Walter Carvalho sobre o músico brasileiro e Terra em Transe (1967), clássico do Cinema Novo, dirigido por Glauber Rocha. “Todas essas foram marcantes para mim por conta da forte presença do público”, certifica ele.  


Fabrício lembra, ainda, de debates marcantes no Cinema no Teatro. "Um deles foi após a exibição de alguma obra da trilogia das cores [A liberdade é azul (1993), A igualdade é branca (1994) e A fraternidade é vermelha (1994)], de Krzysztof Kieslowski", garante. "Tinha um rapaz lá super preparado. Ele fez anotações e tudo mais. E a visão dele estava muito destoante da maioria". Apesar da divergência, Fabrício assegura que aquele foi um excelente momento de troca, e que é nessa multiplicidade de interpretações que se encontra o mais bonito do cinema


Para Ralfer, é indiscutível a influência que o Cinema no Teatro exerceu sobre sua oratória. "Quando eu comecei a frequentá-lo, eu não tinha coragem de falar nada ao longo dos debates. A quantidade de pessoas assustava", afirma. Contudo, ele constata que a experiência de mergulhar no movimento cinematográfico local lhe fez mais confiante. Em pouco tempo, Ralfer já se viu como o condutor daqueles momentos, que também se tornaram alguns dos mais marcantes em sua trajetória.


Ele relata o fervor que tomou de conta do local devido a um debate sobre o filme Brincando nos Campos do Senhor (1991), de Hector Babenco. Na ocasião, uma professora de ensino médio decidiu levar alunos para a sessão. "Por tratar da presença de religiosos católicos nas comunidades indígenas, uma questão que provoca opiniões antagônicas, o debate se tornou acalorado devido à reação da professora. Ela não foi complacente com as críticas presentes ali", recorda o jornalista, sem conseguir conter o riso.


Integrantes do bloco Cinema no Teatro no carnaval de 2015. (foto: Daniel Sena)


No decorrer de tantos anos, muitos também foram os tipos de olhares que passaram pelo espaço do Ferreira Gullar. Variaram os do público, os dos autores das obras exibidas e foi essa multiplicidade o que instigou Gilberto, no início dos anos 2000, a tomar a iniciativa de compartilhar com quem tivesse interesse o seu acervo. “Há de se ter um acesso à diversidade do olhar. A única forma de a gente educar o olhar é rompendo com o que foi estruturado para influenciar uma leitura única do cinema e da imagem”, atesta.


Gilberto defende a importância até mesmo das ocasiões em que as obras eram exibidas para uma plateia de poucas pessoas ou de um espectador apenas. “Para nós não importava a quantidade. Estávamos propondo aquilo que era fundamental para qualquer cidade: o acesso". E assim foi proposto, até o ano de 2017, para quem quisesse e pudesse estar nas poltronas do Ferreira Gullar nas noites de segunda.


Em outubro de 2018, o professor Gilberto retomou a iniciativa de um projeto semelhante, com o Cineclube Muiraquitã. O projeto, coordenado em conjunto com estudantes da universidade, realiza sessões de cinema gratuitas, abertas ao público, todas as terças-feiras, às 19h, na Videoteca de Letras da Uemasul, que guarda o seu precioso acervo. Ele revelou que cogita propor, em breve, uma estratégia de retorno do Cinema no Teatro.

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