Uma dose de poesia com Xico Cruz
- zinesibita
- 17 de jun. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de jun. de 2022
Como ele escreve: “Tomo uma dose de mim todos os dias porque me mereço”
Maira Soares

Um artista multifacetado que carrega a essência da sua arte para todos os lugares. (foto: arquivo pessoal/Instagram)
Com a pandemia da Covid-19, os abraços apertados, sorrisos e a alegria de estar junto ao público deram lugar às lives. Para o artista de Açailândia Xico Cruz, 41 anos, o isolamento social e a quarentena possibilitaram que tivesse mais tempo para ler e escrever. O quarto se tornou o local de criação, com portas e janelas fechadas para pensar, meditar e escrever. O silêncio é importante para Xico produzir suas obras, espetáculos e apresentações.
O pequeno quadrante transforma-se em um estúdio de criação e de florescimento de ideias. Sendo escritor, foi possível ficar em isolamento para refletir. “Aproveitei para organizar muita coisa, mas dentro de um contexto de angústias, medo, pânico e tristeza pelos colegas que não tiveram como trabalhar em casa”, conta.
Apesar da incerteza, Xico tomou posse na Academia Açailandense de Letras em uma celebração virtual, em setembro de 2020. A falta do calor humano e dos abraços não impediram que o momento fosse significativo e trouxesse felicidade ao artista.
Sua carreira é a de um multiartista. Ator, poeta, escritor, cantor e diretor da Cia. de Teatro Cordão, desde 2019 também é secretário de Cultura de Açailândia, que aos poucos retomou as suas atividades mais presenciais.
Quando era pequeno, começou a fazer teatro na igreja que frequentava. A arte o acompanhou na escola e permanece evidente até hoje, consagrando-o na região como diretor e ator teatral. “Sempre desejei fazer arte, é uma coisa que carrego comigo desde a infância”, diz.
Xico Cruz pisou em terras açailandenses com dois anos de idade, deixando para trás a cidade de seu nascimento, Canindé, localizada no Ceará. Mas para ele, Açailândia do Maranhão concentra os costumes e a cultura que o abrigaram em sua chegada e que permanecem vivos até hoje em sua arte.
Com a fala sossegada e olhos expressivos, Xico Cruz menciona que além do teatro, sua primeira formação artística, sentiu a necessidade de escrever. O desejo de transpor pensamentos, ideias e sentimentos para o papel surgiu diante da exigência de elaborar os próprios espetáculos e peças para as suas apresentações. Essas bases artísticas foram fundamentais para as conquistas futuras de sua carreira.
A partir das redes sociais recheadas de declamações e poemas, Xico espalha arte. A simplicidade das ações alcança as suas palavras, como os versos autorais bem dizem: “Não sei muita coisa / Nem seria eu se soubesse / O que seria eu, se soubesse? / Digo muito quando calo / Sou viga, não caibro”. O artista acredita que “o desejo da escrita vem junto com o de fazer teatro” e diz que esse interesse sempre esteve presente em sua vida, vindo de outros tempos e outras energias.
Dos quatro livros publicados, dois são de poesia, um de contos e o mais recente é sua primeira ficção. O primeiro, Há culpa nos olhos (2013), acolhe poesias da adolescência e fase adulta, narrando histórias vividas e presenciadas, tendo o saudosismo como principal aspecto.
Já sua segunda obra, A vida na Rua do Casqueiro (2016), retrata uma via famosa de Açailândia, que dá nome ao livro. “Este lugar é onde tudo acontece, uma rua bem movimentada”, descreve Xico sobre a publicação, que traz poemas engraçados e que brincam com as palavras típicas da região.
O terceiro livro, Conto escravidão (2018), foi escrito a partir de histórias ouvidas de pessoas que foram resgatadas do trabalho escravo. El rei menino (2020) é o quarto, um romance que explora o misticismo do rei Sebastião I, de Portugal, e sua repercussão na cultura regional. As obras são trabalhos diferentes, mas que mostram como Xico Cruz vagueia pelos gêneros e traz em suas raízes expressões que são recorrentes no Maranhão e no Nordeste.
As inspirações para atuar no campo artístico vieram de casa e da rua. O irmão é jornalista e músico e a mãe, Rita Cruz, costureira e contadora de histórias. A inclinação artística sempre acompanhou a família e Xico afirma que a herdou da mãe.
Além dessas inspirações, outras também se aconchegaram para formular suas bases. Segundo ele, a admiração que tem por alguns artistas “vai mudando assim constantemente, não é uma coisa congelada”. Essa fluidez permite com que percorra os caminhos da arte em todas as suas instâncias.
Dos artistas que admira, ele menciona seus professores de teatro e grupos como O Lume, de São Paulo, Galpão, de Minas Gerais, Amok, do Rio de Janeiro, Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte e a Pequena Companhia de Teatro, de São Luís.
Na literatura, os escritores Machado de Assis, que o acompanhou durante sua infância, Guimarães Rosa, com o Grande sertão: veredas, Ariano Suassuna, de A pedra do reino e a obra do moçambicano Mia Couto o inspiram no desejo de continuar escrevendo.
Afora todos esses talentos, Xico ainda é diretor artístico da quadrilha junina Matutos do Rei, que em 2022 ficou em terceiro lugar no Arraiá da Mira com o tema "Ave fogo: louvores à ressurreição". Com roupas vibrantes, dança e cantoria, a junina ganha forma e os temas são de especial atenção para as apresentações no São João maranhense.
“É uma coisa muito natural. Eu mesmo escolho, vem aquela ideia na cabeça, vou estudando e se ver que têm condições e possibilidades, então decido que vai ser esse”, conta sobre o processo de escolha dos temas para a quadrilha. Neste ano os brincantes representaram uma revoada de "pássaros de fogo", em referência a este elemento, e a história foi narrada pelos noivos, um casal de asa-brancas.
A Matutos do Rei é pentacampeã do Arraiá da Mira, campeã da Mostra Competitiva Maranhão e vencedora da Melhor Coreografia do Nordeste 2015 e Melhor Marcador do Nordeste 2016. Xico Cruz é um artista completo que carrega consigo a ritmicidade do povo maranhense, das raízes nordestinas e do bom humor das palavras. É calmaria e ventania. É arte e poesia.
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